quinta-feira, 4 de abril de 2013

Antigo Campo dos Remédios

@braga maior - Campo dos Remédios


O largo Carlos Amarante é um dos principais espaços urbanos do centro histórico de Braga. Marcado pela monumentalidade dos dois edifícios religiosos que hoje se destacam nos seus limites, o seu primitivo nome foi Rossio de S. Marcos, devido à existência de uma capela com as relíquias deste evangelista, trazidas presumivelmente pelos templários para a cidade de Braga.

No século XVI adquiriu importância no contexto urbano e vai passar a chamar-se de Campo dos Remédios, devido ao edifício mais importante existente neste lugar: o convento de Nossa Senhora da Piedade e dos Remédios. 

Esta praça vai assumir-se como tal particularmente após a chegada a Braga do arcebispo D. Diogo de Sousa (1505-1532) que, ao criar um eixo de circulação entre a Sé e a porta de São João, vai permitir uma utilização mais frequente desta saída da cidade, que permitia o trânsito para Guimarães.

A porta de S. João, ou porta “Orienta”, é mencionada, pelo menos, desde 1210, localizando-se sensivelmente no lugar onde hoje se encontra a Casa dos Coimbras. Demolida em 1867, a porta deteve importância motriz para o surgimento do espaço que hoje denominamos largo Carlos Amarante, dado que surgiu na sequência da iniciativa de D. Diogo de Sousa de construir “campos” junto a todas as portas da muralha. Entretanto, o mesmo prelado vai abrir a rua dos Granjinhos - que ligava o largo Carlos Amarante à antiga ermida de S. Lázaro – confirmando a intenção de urbanizar esta área.

O hospital de S. Marcos (entretanto reedificado por Carlos Amarante) foi o primeiro grande edifício a dar forma a este conjunto urbano, dado ter sido fundado durante a prelazia de D. Diogo de Sousa, em 1508.
Em seguida, foi fundado o convento dos Remédios, no ano de 1544, por intermédio de D. Frei André de Torquemada, religioso franciscano, tendo sido o primeiro convento a surgir em Braga. Este cenóbio feminino, da ordem de S. Francisco, ocupava toda a zona Nascente do largo Carlos Amarante, desde a rua de S. Marcos até ao fundo da rua de S. Lázaro. 

Do complexo conventual demolido em 1911, para permitir a construção do Theatro Circo, é de destacar o monumental edifício setecentista que fazia gaveto com a rua de S. Marcos e a igreja barroca. Alguns dos seus despojos foram espalhados pelo Parque da Ponte.

Nas décadas de 30 e 40, completando o local onde estava o convento, surgiu o Cinema S. Geraldo, que esteve em funcionamento até à década de 80, e, pouco tempo mais tarde, surgiu a Auto Viação Marinho, central de camionetas desactivada nas expropriações do 25 de Abril.


Convento dos Remédios



Fundado no ano de 1544 por D. Frei André de Torquemada, religioso franciscano coadjutor do Arcebispo D. Manuel de Sousa, foi o primeiro convento a surgir em Braga. Convento feminino da ordem de S. Francisco, ocupava toda a zona Nascente do Largo Carlos Amarante (que durante longo tempo foi logicamente chamado de Campo dos Remédios), desde a Rua de S. Marcos até ao fundo da Rua de S. Lázaro. Do edifício primitivo nada chegou à data da demolição. Do complexo conventual demolido em 1911 é de destacar o monumental edifício setecentista que fazia gaveto com a Rua de S. Marcos.

A igreja, que se observava no início do século passado, foi a terceira que o convento teve. A primeira não durou mais de 70 anos, tendo surgido um novo projecto em 1609, que em 1724 deu lugar àquele que foi demolido. Este último templo foi uma obra do arquitecto vimaranense António Pinto de Sousa, mandado edificar pela Abadessa D.ª Francisca de Serafins, onde se podiam admirar belos exemplares de azulejos setecentistas alusivos à vida de S. Francisco, para além de um fabuloso retábulo barroco que hoje pode ser visto na capela de Santa Marta da Falperra. 

A igreja tinha uma curiosa fachada com seis estátuas organizadas em três níveis, entre colunas torsas.



Todos os elementos da fachada estão hoje espalhados pelo recinto do Parque da Ponte. As imagens estão colocadas junto ao cruzeiro de D. Frei Bartolomeu dos Mártires, sendo que a imagem de S. João Baptista se encontra na parede traseira da capela de S. João da Ponte assente num dos conjuntos da fachada; as colunas estão no paredão que adorna o adro da capela; alguns dos azulejos do interior da igreja forram hoje as paredes da referida capela; as armas da ordem de S. Francisco que encimavam a fachada estão num recanto, uns metros à frente do portão Sul do parque; e junto a elas, uma pedra que outrora encimava a porta do templo onde se podem ler as seguintes inscrições: ANNO DOMINI MDCCXXV (ano de 1725), que se referem ao ano da edificação deste templo. Além destes elementos ainda podemos admirar, espalhados pelo recinto do parque, alguns capitéis e outras pedras de cantaria provenientes do extinto convento.

A cerca do convento ocupava uma vasta área, e como se encontrava bastante degradado e, havia já alguns anos abandonado, em 1907 o município solicitou ao governo a cedência de parte da cerca para alargamento da futura Avenida João Franco (actual Avenida da Liberdade). 

As confrarias sediadas no templo solicitaram também, no mesmo ano, a cedência da igreja e sacristia, mas misteriosamente este requerimento desapareceu dos gabinetes estatais. 

A 13 de Setembro de 1907 foi concedido ao município mais do que havia pedido, sendo agora detentor não só da cerca mas de todo o convento, incluindo o templo. As confrarias voltam a tentar a cedência do templo e, a 31 de Outubro do mesmo ano, o Governo acedeu ao pedido. 

Contudo a Câmara de Braga opôs-se a esta deliberação por ter resolvido, entretanto, abrir uma rua transversal pela cerca do convento, desde a Avenida João Franco até ao Largo Carlos Amarante, havendo a necessidade de cortar a igreja ao meio para alinhar a artéria com a fachada da igreja de S. Marcos. Porém o templo e dependências são cedidos às confrarias. 

A Câmara entra, então, em negociações com as confrarias, mas tal não foi necessário pois o decreto que cedia a igreja às confrarias não foi incluído no despacho ministerial, logo ficaram na posse do município. Muitos movimentos cívicos se levantaram, protestando contra a decisão da Câmara de demolir o templo e convento, mas de nada valeu pois no dia 3 de Abril de 1911 foi rezada a última missa na igreja e poucos dias depois foi demolida.

Para além dos elementos transferidos para o Parque da Ponte, algumas telas a óleo foram transferidas para o Arquivo distrital, sendo as imagens do templo espalhadas por várias igrejas da cidade. Do convento saíram ainda algumas fontes incluindo a fonte de Santa Bárbara que actualmente se encontra no jardim do mesmo nome, e outros objectos que hoje se encontram em local desconhecido na posse de particulares.

Com a demolição desta igreja, Braga ganhou uma nova rua (Rua Gonçalo Sampaio) e um fabuloso teatro (Theatro Circo – 1915), todavia perdeu um monumento que marca, indelevelmente, a sua história.


Igreja de Santa Cruz


 Corria o ano de 1581 quando Jerónimo Portilho, um professor que vivia na vizinha Rua de S. Marcos, decidiu fundar uma confraria, que sustentasse a devoção a um cruzeiro que existia no cruzamento da rua do Anjo com o Campo dos Remédios, no local onde hoje se situa a Igreja de Santa Cruz.

Este cruzeiro foi mandado construir pelo arcebispo D. Diogo de Sousa (1505-1532), num programa de reestruturação da cidade.

A Irmandade de Santa Cruz foi a primeira, para além da poderosa Santa Casa da Misericórdia, a alcançar o feito de ter uma igreja de grandes dimensões como propriedade exclusivamente sua. 

Foi no ano de 1624 que o Arcebispo D. Afonso Furtado de Mendonça assistiu ao lançamento da primeira pedra da igreja de Santa Cruz. Localizava-se no preciso local onde estava o cruzeiro que deu origem a esta devoção, junto a um lugar denominado de Castelo Rodrigo, por lá ainda existirem as ruínas de um torreão da velha muralha romana. 

A devoção à Santa Cruz está, contudo, associada à lenda na qual Santa Helena, mãe do Imperador
romano Constantino Magno, terá descoberto as relíquias da Cruz onde morreu Jesus Cristo.

Em 1625 o arcebispo Afonso Furtado de Mendonça benzeu o terreno onde iria ser implantado o templo, dando-se início imediatamente às obras.

A obra de pedreiro ficou concluída apenas em 1653, exceptuando-se as torres, que foram concluídas em 1694.

Apesar da morosidade da obra, a estrutura do templo cedo começou a dar sinais de ruína. Assim em 16 de Novembro de 1731 a mesa da irmandade convidou o mestre Manuel Fernandes da Silva, então ocupado a dirigir as obras de Mafra, para reparar os estragos do tempo. Este depois de demolir parte das paredes, abandonou a obra.

Apenas em 1734, se demoliu todo o corpo da igreja, ficando apenas a fachada, tendo as obras ficado completas em 1739.

Foram arquitectos da Igreja, o reverendo arquitecto Geraldo Álvares, o mestre de obras Francisco Vaz, o licenciado João Dias Leite e o Reverendo Pedro de Coimbra Andrade.

A fachada compõe-se de quatro meias colunas semi-circulares e caneladas, que sustentam uma viga, prolongando-se até ao frontão. No cimo uma cruz ladeada de duas imagens.

Os treze instrumentos da paixão de Cristo, como a coroa de espinhos, os cravos, a lança, o azorrague, a esponja de fel, etc. estão assinalados na arquitrave horizontal, figurando em cada extremo um galo.

No meio da frontaria sobressai uma cruz com duas bandeiras de mastro cruzado. Do lado esquerdo vê-se uma árvores com frutos, e do direito uma palmeira, simbolizando a cruz como árvore da vida.

No cimo do frontão está a esfera armilar, com a coroa real e as armas de Portugal. Por cima de uma pequena rosácea, a pedra de armas de Portugal foi colocada quando D. Afonso VI, em 11 de Outubro de 1822, elevou a irmandade de Santa Cruz à categoria de Real.


Nas padieiras estão as seguintes inscrições em latim:

IPSE LIGNVM TVNC NOTAVIT --- ANNO
VEXILLA REGIS PRODEVNT FVLGET CRVCIS MYSTERIVM
REGNAVIT A LIGNO DE(VS) --- MDCXXXXII
Sobre as três portas de entrada estão as seguintes inscrições:
ECCE ASCENDIMVS IEROSOLYMAN -- MAT XX
ET FILIVS HOMINIS
TRADETVR AD CRVCIFIGENDVM -- MAT XX

A coroar todo este conjunto vê-se um varandim que liga as duas torres, e a meio deste varandim a cruz.

Encimando o conjunto observa-se a Cruz à qual está agarrada uma figura que representa Santa Helena. Ladeando esta, outras duas figuras de joelhos e mãos erguidas, que têm sido identificadas como D. Afonso Henriques e o Imperador Constantino Magno, ambos ligados, segundo a tradição, a esta devoção.

As torres, de 1734, têm a encima-las dois cataventos.



Igreja de S. Marcos


O edifício do Hospital e da Igreja de São Marcos que vemos actualmente datam do séc. XVIII, e foram construídos de acordo com o projecto de Carlos Amarante, arquitecto que dá nome ao largo onde estão situados. 

Em estilo barroco, a verticalidade da Igreja, com as suas duas torres, contrasta com a horizontalidade das dependências hospitalares que se desenvolvem simetricamente, criando um conjunto harmonioso.

Os corpos laterais foram projectados e construídos por José Fernandes Graça, de apelido o Landim e que foi encarregado da obra de cantaria e escultura delineada por Carlos Amarante.

Na sua decoração exterior destacam-se as estátuas dos apóstolos em tamanho natural que marcam o ritmo da balaustrada superior. A meio da fachada da Igreja, num nicho, podemos ver a imagem de São Marcos. 

As Relíquias do corpo do Apóstolo e Bispo São Marcos ,encontram-se nesta igreja à veneração dos fieis.
A igreja tem a particularidade de venerar o Apóstolo S.Marcos,e o Bispo São Marcos. Tudo leva a crer que seja o corpo do mesmo Santo Apóstolo, que se supôs desaparecido durante séculos. A presença em Braga de muitos crentes do Leste Europeu Ortodoxo,teve a virtude de chamar a atenção para este "achado" Apostólico.

No local existia antes uma Igreja e um hospital mandados construir por D. Diogo de Sousa, no séc. XVI. O hospital destinava-se então a assistir os pobres, peregrinos e viajantes que pernoitavam na cidade de Braga. 



Chafariz Largo Carlos Amarante



Originalmente situada no Campo da Vinha, esta fonte foi colocada, no início do século XX, no Largo Carlos Amarante, onde ainda permanece. A data da sua construção é desconhecida, mas sabemos que a fonte já existia em 1737, sendo, então, um importante ponto de abastecimento público de água urbana. 

O monumento tem semelhanças com um obelisco encimado por um globo decorado com elementos vegetalistas. Na sua base uma coluna ricamente decorada, mostra quatro bocas de peixe, que jorram água na bacia. 

Por sua vez, a bacia  tem quatro figuras (carrancas) responsáveis pela escoamento da água, deitando-a para o tanque. Hoje em dia, o monumento é assente sobre uma plataforma com três escadas e tem uma função meramente ornamental.


Capela de S. Bentinho do Hospital




Capela barroca e neoclássica, datada de meados do século XVIII. No século XIX foi construído o alpendre e também colocado o retábulo-mor. No interior destaque para um painel representando São Bento, Nossa Senhora da Luz e São Bernardo e para um altar em forma de urna.


O espírito da Regra de São Bento resume-se em dois pontos: o lema da Ordem de São Bento (pax - «paz»), que nasceria séculos mais tarde, como resultado da agremiação de vários mosteiros que partilhavam a mesma regra; e ainda o tradicional "ora et labora" («reza e trabalha»), súmula da vida que cada monge deve levar.